maquilhagem

Não são um cenário trágico mas uma passagem no tempo. Bruna acena e pinta as unhas.

mousse

Trago limões para casa ou espero que haja qualquer coisa que me ajude a cozinhar?, Jesulinda não sabe bem, no entanto, os limões não ajudam a cozinhar, é apenas um pretexto para tocar na ferida.

Itelvina nasceu na comunidade cigana. Tem os olhos mais bonitos que o padre já viu. Passa pela igreja, dia sim, dia não, e deixa uma sandes de queijo e presunto no poial. O padre, que acha que Itelvina tem os olhos mais bonitos que já viu, assobia agora para um pardal que caiu morto, com o calor, no pátio da capela. Arregaça as mangas da batina, está na hora.

educação visual

Rosário é também Maria. Gosta da cor rosa, da cor lilás e da cor violeta. Tem na varanda lírios, na cozinha sapatos e na sala gatos. Orienta-se melhor de olhos fechados do que em silêncio. Desenha.

de amesterdão

O peso dos meus pés no tapete são ainda um mero acaso na manhã. Sinto a cara e a cabeça pesadas, os olhos inchados e a boca seca. Costumo babar-me durante a noite, tenho saliva seca nos cantos da boca e uma preguiça eterna de lavar a cara. Debruço-me um pouco para a frente, dobro-me depois até quase aos joelhos e endireito-me de novo. Volto a cabeça e vejo-te pelo canto do olho. Não te vejo na totalidade e saboreio mentalmente esse olhar fechado de quem dorme, essas pestanas de homem bonito. Não és meu, mas podias ser. Se quiséssemos que fosses. Eu não quero, tu não queres, e confesso que, mesmo quando me levanto, abro a boca bastantes vezes num curto intervalo de tempo.

Ana
Portugal, Abril 2013

chama-se: casa de repouso

Meti na cabeça que o Xavier vinha hoje, sonhei ou ouvi as conversas ali do corredor. A enfermeira tem as unhas grandes, arranha-me a cabeça quando me lava. Aqui na cabeça, deste lado! E este champô dá-me comichão. Tenho que lhe dizer das unhas... Já a Joana com 12 anos deixa crescer as unhas e pinta-as de uma cor qualquer, agora não me lembro… Azul ou lá o que é. Ó Anabela, chegue aqui, tenho as cuecas cheias de merda, parece-me… A hora mudou e as das limpezas têm outro horário. Há uma com um dente d'ouro, vem sempre às seis. Ali no quarto cento e picos, está um que andou comigo na tropa, acho que é Aníbal ou lá o que é. A comida não tem sal, isto o esqueleto aguenta-se a pão e água como lá em… Eick, vou dormir ou o raio que os parta. As unhas da Joana azuis. A nossa fotografia de casamento amarela, Maria Jacinta.

António

segredo

Olívia é um livro em aberto. Faz tranças todos os dias, todos os dias, todos os dias. Gosta de laranja às rodelas e tem na sua almofada um poema. Que poema? É segredo.

refogado

Albertina vem de avental, os tomates são grandes como no ano passado. A bancada da cozinha tem claridade por esta hora. As cebolas caem do alguidar de repente, Albertina grita com o susto. Albertina tem um dente d'ouro.

saleiro

Marieta tem asma, poda as roseiras e veste um blusa tingida. É Domingo, não tem sal.

armários

Roseta tem um brinco de cada cor, um maior que o outro. Benze-se cada vez que abre uma gaveta.

reticências

Face ao desconhecido, Margarete prossegue em marcha lenta e quase assombrosa para os que demais a vêm.

uma história

Ofélia não está de luto mas tem um fio de ouro que lhe cai religiosamente pelo peito. Traz da 4ª classe que uma vida inteira não cabe no mesmo espaço que um galão escuro. Um dia quando crescer vai cantar numa igreja vazia e os dedos irregelados do frio aprenderão a tocar nos bancos corridos de madeira; fecha os olhos. Saberá que o então luto é o começo de um nevão na serra que espreita na porta escancarada. Os azulejos no corredor.

borboletário

Vítor apanhou borboletas com Salgueiro Maia em Torre das Vargens. Tinha uma grande colecção. Vítor podia ser outra pessoa. Mas Vítor é o meu pai.

dança

O Sr. Roberto é barbeiro e frequenta muitos bailes. Sorri para dentro. Ele sabe.

basta

Irene não quer mais leite. Arrefecem-lhe os dedos dos pés, vai para a cama. As escadas em madeira estalam, com o passar dos anos a madeira seca. Será que tirou a gaiola da rua? Sobe.

memorando

David tinha no bolso um papel amachucado onde escrevera a primeira letra do abecedário.

não sabe de nada

O Sr. Thompson coça a cabeça e, algures entre o quarto e o quinto bocejo, conclui que isto (aquilo) não é para ele. Sente-se aborrecido, apático a maioria das vezes, e afónico porque tem uma gripe que não consegue curar há mais ou menos um mês. Entretanto teme pela vida da empregada de limpeza, que num quase tropeço, cai das escadas. Fecha o estore. Não sabe de nada.

em 2013

escrevi assim.

Os meus avós, casados, viveram numa casa sem água e sem luz. A minha avó fazia o comer às escuras, não tinha frigorífico e sorria cada vez que me dava (depois do meu infantil pedido) um pão com manteiga e açúcar. Não consigo conter as lágrimas, chorona que sou, quando me lembro que tenho mais saudades do que aquelas que julgava ter. E já tinha tantas...

O meu avô, em alturas fugido à PIDE segundo me contam (não me interessa sequer se é uma mentira ou uma verdade exagerada), foi também ferroviário numa das estações mais bonitas que conheço. Não me recordo de lhe ver azulejos, recordo-me apenas. E basta. Ele, o meu avô, ia todos os anos ao Avante. Imagino-o ao longo dos anos, a conhecer, a conviver e a reencontrar aquelas pessoas (depois amigos, talvez) de ano para ano. Imagino-o, mais uma vez, com a sua boina axadrezada e cinzenta, e de olho azul que hereditariamente ofereceu ao meu pai. Ele, o meu avô, faleceu na manhã de 25 de Novembro de 2007.

O meu pai, tal como o meu avô, tem uma biblioteca em casa. Literalmente. O meu pai tem uma biblioteca em casa: livros que trouxe da juventude, livros que trouxe posteriormente da casa dos meus avós, colecções de livros que saíram em jornais e revistas e outros tantos comprados em alfarrabistas e mais recentemente em feiras de 2ª mão e velharias. O meu pai, casado com a minha mãe há 26 anos, é a pessoa mais bonita que conheço (podia jurar, mas basta afirmar). Portanto, é a pessoa mais bonita que conheço juntamente com a minha mãe, que é também a pessoa mais corajosa que conheço. Os dois são tudo (para mim), como devem imaginar. 

Quando nasci, vivemos numa casa sem água e sem luz, com 3 divisões e uma camila na cozinha onde eu brincava de penico no rabo e tampas de panela nas mãos. Ao lado, vivia a Sra. Ana e o Sr. Rosa, com quem a minha mãe conversava quando o meu pai estava dias seguidos em Lisboa a trabalhar; era também na Sra. Ana e no Sr. Rosa que tomávamos banho (às vezes), pois tinham uma casa-de-banho de verdade, construída ao lado da casa. Hoje, a Sra. Ana e o Sr. Rosa estão num lar. Não entrei, acobardei-me. A vida: não têm filhos, o único que tinham suicidou-se.

frio

Frio? perguntou-se Joanne, abruptamente contra o nevoeiro, olhar nublado como tal, frieiras nas mãos e pés enregelados de frio. Frio. Da boca, a respiração visível e a pergunta nervosa de quanto tempo mais precisamos? Quero ir à Islândia.

joseph

não sabe bem porque se chama Joseph, teima em mascarar-se de urso porque acordou com herpes há 2 dias atrás.

pompeia

tem uma saia rodada, uma camisa bordada e umas peúgas verdes até ao joelho. Calça os chinelos mais velhos lá de casa, tem um xaile na cadeira e à porta aquele vaso de barro, o da feira, com flores. Chama-se Pompeia como a cidade romana que nunca visitou. Vive no prédio desde sempre. Hoje almoçou pescada cozida.