em 2013

escrevi assim.

Os meus avós, casados, viveram numa casa sem água e sem luz. A minha avó fazia o comer às escuras, não tinha frigorífico e sorria cada vez que me dava (depois do meu infantil pedido) um pão com manteiga e açúcar. Não consigo conter as lágrimas, chorona que sou, quando me lembro que tenho mais saudades do que aquelas que julgava ter. E já tinha tantas...

O meu avô, em alturas fugido à PIDE segundo me contam (não me interessa sequer se é uma mentira ou uma verdade exagerada), foi também ferroviário numa das estações mais bonitas que conheço. Não me recordo de lhe ver azulejos, recordo-me apenas. E basta. Ele, o meu avô, ia todos os anos ao Avante. Imagino-o ao longo dos anos, a conhecer, a conviver e a reencontrar aquelas pessoas (depois amigos, talvez) de ano para ano. Imagino-o, mais uma vez, com a sua boina axadrezada e cinzenta, e de olho azul que hereditariamente ofereceu ao meu pai. Ele, o meu avô, faleceu na manhã de 25 de Novembro de 2007.

O meu pai, tal como o meu avô, tem uma biblioteca em casa. Literalmente. O meu pai tem uma biblioteca em casa: livros que trouxe da juventude, livros que trouxe posteriormente da casa dos meus avós, colecções de livros que saíram em jornais e revistas e outros tantos comprados em alfarrabistas e mais recentemente em feiras de 2ª mão e velharias. O meu pai, casado com a minha mãe há 26 anos, é a pessoa mais bonita que conheço (podia jurar, mas basta afirmar). Portanto, é a pessoa mais bonita que conheço juntamente com a minha mãe, que é também a pessoa mais corajosa que conheço. Os dois são tudo (para mim), como devem imaginar. 

Quando nasci, vivemos numa casa sem água e sem luz, com 3 divisões e uma camila na cozinha onde eu brincava de penico no rabo e tampas de panela nas mãos. Ao lado, vivia a Sra. Ana e o Sr. Rosa, com quem a minha mãe conversava quando o meu pai estava dias seguidos em Lisboa a trabalhar; era também na Sra. Ana e no Sr. Rosa que tomávamos banho (às vezes), pois tinham uma casa-de-banho de verdade, construída ao lado da casa. Hoje, a Sra. Ana e o Sr. Rosa estão num lar. Não entrei, acobardei-me. A vida: não têm filhos, o único que tinham suicidou-se.